sábado, 27 de maio de 2017

Redação da Fuvest - A esperança aos poucos vence o medo

Exemplo de redação

E a esperança aos poucos vence o medo

"Deus é brasileiro". Tal citação é famosa internacionalmente, e recentemente até se tornou título de um filme nacional' estrelado por António Fagundes. O povo brasileiro sabe do potencial' e da beleza que sua nação possui, ama o Brasil e é patriota a ponto de acreditar que vive em um "país abençoado por Deus", como diz a canção de Jorge BenJor. Contudo, ainda nos deparamos com o sentimento de auto-depreciação presente em nossa cultura. Esta é uma contradição difícil de ser compreendida.
Muitos fatores contribuem para a auto-desvalorização do povo brasileiro. Um deles é o caos social-enquanto não houver comida e emprego para todos, como se pode esperar uma autoestima coletiva? Outro agravante é a heterogeneidade étnica e racial da população, que ao invés de gerar todo o sentimento positivo que seria de se esperar, causa muita fragmentação e desunião, já que ainda há muito preconceito. Mais um ponto negativo é a submissão económica do Brasil a países como os Estados Unidos. Tudo isso gera uma situação de desconforto do brasileiro consigo mesmo, que derruba o mais forte dos patriotismos.
O Brasil é um país de história recente, onde a democracia se estabeleceu há pouco tempo. Tal fato, reunido aos fatores citados anteriormente, faz com que a população não tenha consciência de seu poder. Aqui, ainda não houve uma revolução de dimensões extraordinárias que tenha mostrado aos brasileiros que quem manda no país é o povo, e não o presidente. Já conseguimos o direito às Eleições Diretas, e alcançamos o impeachment de um governante corrupto. Neste ano, colocamos no poder um presidente que veio do povo e dos sindicatos. Assim, com o desenrolar dos fatos, a consciência e o senso comum aos poucos se alteram. O brasileiro realmente tem uma concepção confusa do que é capaz, mas len tamen te começa a acreditar em si mesmo, e aos poucos se levan ta e mostra que, festa mais bela que a Copa do Mundo ou o carnaval, é a tomada do Palácio da Esplanada pelos brasileiros que acreditam em um futuro melhor.


(Fuvest 2003, Algumas das Melhores Redações. www.fuvest.br/vest2003/bestred/bestred.stm)

Análise da redação



COMEÇO, MEIO E FIM: a dissertação apresenta uma organização clara das ideias, bem divididas entre os parágrafos. Essa ordem facilitou a condução até a conclusão.

0 autor utilizou o primeiro parágrafo para apresentar o dilema entre o orgulho patriótico e o sentimento de autodepreciação. Optou, no entanto, por dedicar o parágrafo principalmente a elementos que ilustram a primeira visão: a citação do velho ditado "Deus é brasileiro" e as referências ao cinema e à música popular. Acrescentou, então, o contraponto da autodepreciação, limitando-se a afirmar que a contradição não é de fácil compreensão.

Em uma separação que facilitou a leitura e o acompanhamento da argumentação, o candidato utilizou o segundo parágrafo para enumeraras causas da autodesvalorização. Apresentou exemplos claros - a desigualdade social, o preconceito racial e a dependência económica. E só então deixou evidente seu ponto de vista: a injustiça e o subdesenvolvimento são tão graves que se sobrepõem ao "mais forte dos patriotismos".

0 TRUNFO É A CONCLUSÃO: o terceiro parágrafo, mais extenso, divide-se em partes bem encadeadas que constituem uma sólida conclusão para o texto.

0 autor demonstra um aproveitamento hábil de seu repertório pessoal ao lembrar que o Brasil é um país de experiência democrática recente, na qual a população ainda não tem total consciência de seu poder participativo. 0 candidato então cita exemplos de desenvolvimento da democracia - o direito à eleição direta, o impeachment de um governante por corrupção e a eleição de um presidente de origem popular - para mostrar que a mudança realmente está em curso.

Segue-se o trecho da conclusão propriamente dita, com uma reapresentação do ponto de vista: "0 brasileiro realmente tem uma concepção confusa do que é capaz, mas lentamente começa a acreditar em si mesmo". A conclusão em si, a proposta de maior participação política, é apresentada em seguida por meio de uma imagem metafórica que inclui ainda um elemento surpresa - "a tomada do Palácio da Esplanada", cuja intenção é sugerir uma maior influência da população sobre o centro do poder da República.

Aqui, cabe destacara aparente confusão, na expressão "Palácio da Esplanada", entre o Palácio do Planalto, que é a sede do Poder Executivo, e a Esplanada dos Ministérios, ambos em Brasília. Os deslizes não parecem ter prejudicado a avaliação da redação, cujo ponto forte está na boa organização de pensamentos e na conclusão coerente.

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